Ipsilone: Vocês são o sal…
Vou apresentar uma novidade muito boa e não vou me incomodar com isso por mais do que uma postagem. Portanto, leia atentamente e trate de se converter urgentemente.
Um costume muito feio da nossa geração é batizar a morte de gente do século XX com os nomes dos nossos interesses. São maus modos que disseminam uma idéia de que devemos salvaguardar essa coisa que chamamos democracia (algo como uma monarquia totalitarista cujo rei se esconde em todos os que dela se beneficia) em nome e em respeito à memória dos que morreram sob regimes totalitaristas, ou na guerra, ou durante a revolução, ou em resistência às ditaduras. Estes são os veneráveis mártires que lutaram e sucumbiram para que chegássemos a um patamar de liberdades as mais diversificadas possíveis.
Não sei se o nome é propício, mas sugiro que chamemos isso de egoísmo histórico determinista. Essa postura faz parte do programa positivista que a maioria de nós no mínimo aceita, a de que a nossa é a melhor das sociedades possíveis. Decidir assim a causa da morte dessas pessoas é mais ou menos como o cristianismo vitorioso decidir que Cristo morreu crucificado para nos salvar. Os nossos mártires não teriam morrido por nada do seu tempo, por nenhuma força ideológica de sua época que eles amaram e assumiram, nem por nenhuma prática sua que por melhor que fosse era ilícita. Eles sacrificaram suas vidas para o nosso bem-estar. Se junta sua inocência à sua boa intenção e conclui-se fervorosamente: só podem ter morrido por nossa causa, para que vivêssemos felizes nesse mundo maravilhoso em que podemos gozar do domínio sobre nós mesmos.
Um argumento que serve a muitos propósitos bem aceitos entre nós, dos quais os mais relevantes são: 1. A certeza de que os problemas do sistema são perfeitamente consertáveis e que essa é uma tarefa para um suposto grupo de pessoas que detém o poder; 2) Na esteira desse, o afastamento do comprometimento com uma modificação significativa na forma como vivemos neste mundo, 3) culminando com o gozo de poder decidir os rumos de sua vida individual: qual roupa, qual carro, qual celular, qual blogue…
A peculiaridade da democracia moderna é justamente o fornecimento da sensação de um poder decisório que, ao mesmo tempo em que é propriedade do indivíduo aparece como destinado a algo muito superior a ele. A política aparece como aquilo que de uma hora pra outra, mais precisamente na hora menos propícia, solicita ao indivíduo que se manifeste sobre questões que parecem não lhe dizer respeito particularmente, mas de cuja abrangência e domínio ele aparentemente não pode escapar.
Há uma maneira de tratar o poder que não permite que ele seja percebido nas relações individuais, o poder é objetivado, positivado, coisificado. Falamos do poder com a linguagem desportiva: quem vai ficar com ele, quem vai perdê-lo, na mão de quem ele está, quem vai arrancá-lo, quem vai usá-lo para o bem ou para o mal. O poder é como uma bola ou qualquer outra coisa que pode passar de uma mão para outra e que pode decidir o jogo. Por esse dogma, o que os sujeitos podem decidir sobre sua vida é somente aquilo que lhes afeta particularmente, enquanto as reais e importantes decisões estão em alheio jogo, inacessível e com regras próprias; é de lá, desse centro invisível que virá a redenção da nação: os bons projetos, as boas medidas, o desenvolvimento sustentável, o crescimento da economia, a justiça, a bondade e a prosperidade. O dogma nos garante viver como num video-game, segundo ele de fato não temos o poder de implementar essas modificações, nem mesmo temos a possibilidade de modificar as regras transcendentais do jogo, mas podemos sim decidir a trajetória dos jogadores, podemos decidir quem são os bons e melhores treinados, quem são os de melhor intenção e práticas moralmente louváveis.
O dogma do poder coloca o sujeito em posição pretensamente objetiva de visão e lhe indulta a ilusão de decidir o que deve ter havido ou o que haverá de haver, a essa decisão é dado um caráter de direito e dela se assegura que deve ser baseada na boa fé, na racionalidade e na eficiência… do outro que se apresenta como portador da salvação. A ilusão de poder decidir se sustenta na esperança depositada mais adiante: no partido, no projeto, no programa, na revolução, no candidato e seu bom humor, ou na candidata e sua eficiência. No fundo e na verdade, essa é a morte da esperança, porque supõe o advento de alguém que nos suprirá a todos com tudo o que necessitamos e que fará, ele mesmo, e tomará como sua tarefa todas as virtudes que frustramos em assumir e disseminar nas relações miúdas, entre amigos, vizinhos, colegas de trabalho e até os desconhecidos ao lado de quem nos sentamos no ônibus. Mata a esperança quem se augura em ser seu legítimo procurador.
Uma proposta bem menos romântica, por exemplo, é a do evangelho de Jesus. Ele faz questão de desanimar seus ouvintes quanto a que haja essa pessoa, recomenda que não depositem em ninguém, muito menos em si mesmos, essa vã expectativa e desfere o último golpe: exige que cada um assuma a tarefa de modificar a sua maneira própria de se relacionar com o outro (quem quer que seja esse outro) de forma que e esperando que essa mudança provoque um efeito de transformação do mundo inteiro: a salvação do mundo depende da renúncia de uma esperança colocada noutro lugar que não seja no seu Bem, e depende também que eu decida viver agora a forma de vida que eu espero que haja nesse mundo por vir. Por isso que o anúncio da salvação era a própria presença dele, não só uma proposta para quando ganhar as eleições, mas uma prática agora: “Veja é assim, ó!”
Um primeiro passo é rejeitar essa tendência intimista de acreditar que o poder está em ti. Não, ele não está em ti, porque ele não existe assim de-se-pegar, nem se concentra numa ponta do cordão. O poder é um modo de se relacionar, uma jogo de posições… E a proposta insana acima apresentada recomenda que você não deseje participar desse jogo, porque não é de uma ou outra posição nesse jogo que a salvação virá – as regras são outras… A autoridade de quem vive assim não vem das posições constituídas desde sempre – ou seja, não está em você nem no sistema de posições constituído, ela surge da renúncia a esse sistema de posições, da vivência de uma outra realidade dentro deste mundo, do Alto, como diz inocentemente o escritor do evangelho.. Embora não esteja em mim, a salvação do mundo depende de que eu deixe ela se manifestar em mim. Como você vê, Jesus acreditou em nós, pobrezinho…
A esperança política é mais viva quanto mais evanescente, imprecisa e vaga for a sua manifestação verbal, quanto menos o meu programa se referir a generalidades e quanto mais a mim e à minha posição ele me disser algo – ali onde a esperança se imiscui nas relações mais comezinhas, se infiltra por dentro de onde a pessoa existe e aparece nas saudações matinais, na carona dada ao vizinho, na carona oferecida pelo colega, no oferecimento do cafezinho, na conversa distraída da lanchonete, no apoio a quem sofre de qualquer coisa, na indignação contra toda submissão tola, na desconfiança da sorridente retórica dos bem intencionados, no desprezo a uma verdade cuja textualidade não carrega a carne ou o sangue de um sujeito…
Se eu fosse você, relevaria tudo que eu disse e iria aos lugares de onde me vieram essas idéias: este e este aqui.


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Somos um exército, exército de um homem só…