Ipsilone: Teologia de Rodoviária
Dia desses, por volta das dez da noite, nalguma rodoviária da Paraíba, eu estava na invejada situação de esperar o ônibus para dali a meia hora ou mais. Não bastando, algum deus pôs uma cereja no bolo me inspirando a escolher para descanso, dentre centenas de cadeiras vazias, a que abrigava uma poética poça de água sanitária. Dou a imagem: sentindo os fundilhos ensopados, levantei-me vagarosamente, com o inútil ensejo de não chamar a atenção de ninguém; inútil, porque a boca não seguiu essa ordem e soltou alguns termos adequados para o momento. Revirei no máximo o pescoço para avistar a bunda da calça, passando nela a mão e levando-a (a mão, não a calça) ao nariz, julguei como “mediano” o grau de perigo e de vergonha: há coisas piores com que molhar a calça.
Pois bem: essa agonia terminou de modo súbito pela discussão acalorada e em alta voz em que se meteram alguns esperantes como eu. Uns deles, bêbados, aperriavam um pobre dum crente que tava por perto, certamente conhecido dos tais, afrontando a sua crença com uma mistura de pegadinhas, piadas e afirmações doutrinais. No limite do farnizim, quando os caras exaltaram a protetora dos vaqueiros Nossa Senhora Aparecida e tal, o irmão lascou essa pérola na cara dos amigos e dos transeuntes: “ ‘cabe com isso, rapá: no céu mulher não manda, não! No céu quem manda é homem!”
Fariseu que sou, não pude deixar de ponderar que cloro desbotando a calça é melhor do que doutrina desbotando a fé.

Twitter
Facebook
Adicione ao delicious
RSS Feed










