Ipsilone: Editorial 2 – A vingança


Nada como um título kitsch assim pra chamar a atenção. Há clichês que superaram o próprio caso, e este é o caso próprio do título aí. Um clichê nunca é intencional, ele é a idiotice da simulação de originalidade, como querer inventar a roda (ei-lo!); mas o propósito de usá-lo com fins jocosos transforma-o num super-clichê, já que se tornou clichê usar os clichês com fins jocosos.

À parte a infâmia da rotação de vocabulário do parágrafo inaugural, ando às voltas com essa minha invencionice clichê de escrever em blogues e, agora, em sáites, sobre escrever em blogues e sáites. A última vez que escrevi, dizendo que era a última de fato, me denunciava como obsessivo, e este texto aqui é uma confirmação rotativa disso. Porém, acreditava eu que a minha obsessão se manifestava somente na medíocre incapacidade de deixar de escrever. Agora me alumia o fato de que a verdadeira epifania dela está em dois elementos recorrentes na minha vida: um é o eu estar constantemente prometendo coisas e descumprindo-as sistematicamente, sem esforço ou disposição consciente para isso. O outro é ter uma necessidade quase carnal de falar/escrever sobre isso. Funciono então pornograficamente, preciso pecar em público – pode ser que algo em mim entenda que a única maneira de me vingar da falha é assumi-la, e que a minha histeria seja a de espernear contra o que me afeta em sua inexistência. Ou pior, esse tipo de orgia explícita se parece com as práticas de uma boa parte de uma determinada classe de profissionais que adoram escândalos e estão se lixando para a opinião pública. E aqui deixo uma saudação aos seus comparsas pudicos…

Bem, mas as confissões que se fazem num blogue não têm graça se forem sempre melancólicas ou com ares graves; as verdadeiras confissões são veladas, ditas a ninguém, ditas no branco da folha, ou, no nosso caso, da tela. A verdadeira confissão não se faz no Jerimum, mas no leite em que ele se esparrama; e no ato falho que é o ataque do garfo: pega o jerimum, mas não o leite.

vaqueiros1
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De fato, o reconhecimento que um fulano precisa levar a cabo em sua vida é o de que toda história que se preze começa por ser estória. A História Maiúscula dos livros didáticos é, antes de tudo, uma narrativa, um causo que se estatela sobre sua própria trama, cujo clímax não passa de começo. A história da minha e a da sua vida também o são. A história não tem um sentido próprio, as estórias é que lhe dão qualquer um, obviamente que quase sempre sem o consentimento expresso de quem as conta. João Neto, por exemplo, tendo apresentado um primeiro conto sobre a aurora da idéia da iniciativa apetitosa do Jerimum, não consentiu que o uso pródigo da primeira pessoa do singular denunciasse a particularidade, a contingência, a quase individualidade da epopéia. O que não é mau. Nem bom. É e ponto.

Conto-lhes a minha maneira de estar neste Jerimum Beta: que é como uma ruma de vaqueiros levando boiada pelo sertão avante – de noite, antes na dormida das reses, a gente passa a limpo, no alpendre de uns compadres recebedores, a visage que a vida é quando se amostra inteiriça e quando a gente percebe o piado das lavandeiras num riacho ou a passagem do calango num lajedo. A gente fala pra continuar existindo, mesmo que amigo é no silêncio que seja. O dono da boiada nem se conhece, o dono da viagem também não. Há a companhia e a estória da viagem que é de não se-acabar. É lá que um sabe o resistente mistério de haver pessoas e viagens no mundo. E de que elas sejam companheiras.

Parece que o perigoso da vida é a travessia do ser personagem que se conta por alheia voz e do ser contador da própria história pelas estórias alheias… A narrativa prossegue, de qualquer forma.

Faz sentido não? Des’tá depois fará.

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