Ipsilone: Contestações 1 – O acanalhamento de uma profissão
A Imprensa Corporativa essa semana botou a lógica na gaveta, deu uma photoshopada na legislação de direitos autorais e adicionou uma demão de óleo de peroba nas faces. Toda essa arrumação por conta da inauguração do blogue da Petrobrás, (boa) idéia da Direção da empresa para evitar os corriqueiros transtornos que as redações provocam recortando as declarações e editando as entrevistas da forma mais conveniente para os seus interesses, ou suas opiniões, tanto faz. Usar uma plataforma gratuita como a Santa WordPress, então veio a calhar, porque a empresa é estatal (mista, vá lá, mas com maioria de ações do governo), e aí já seria uma celeuma maior pagar pra publicar o blogue.
Em resumo: o sacrilégio do blogue foi ter publicado o conteúdo de algumas entrevistas antes da publicação destas nos seus respectivos órgãos (O Globo, O Estadão). Isso chateou por demais os donos-de-notícia. Em editorial, O Globo chegou a propor que as perguntas eram propriedade intelectual do entrevistador. Entre o desentendimento e o riso, na hora, tive o impulso de correr no cartório e patentear o reincidente: “Como vai sua família?”
Levando a cúmulo, o entrevistado também é proprietário de suas respostas e a gente pode brincar agora de patentear perguntas e respostas, já que umas não têm nada a ver com as outras, lógico, dã! O jornalista é livre para publicar sua pergunta e eu, a minha resposta. Tipo:
“ – Que medidas o STF está tomando para acabar com a farra das vagas para deficientes em ambientes públicos? [Heraldo Pereira®]
– Sim, acho bolo de milho uma iguaria formidável! [Gilmar Mendes®]”
[Se você ainda não entendeu o porquê desse exemplo, veja isso.]
Na verdade, essa gritaiada toda são os últimos apupos de um modelo de circulação de informações em franco processo de putrefação. Os Jornalões impressos, edições televisivas lateralizadas e notícias padronizadas em grandes conglomerados de rádio já não têm mais o monopólio da opinião ou da difusão de notícias. A informação, durante o boom das tecnologias de radiodifusão, havia se tornado uma mercadoria industrializada, feita nos padrões taylor-fordista. Essa produção ficou aglutinada em redor dos grupos rentáveis economicamente e, se um ter um jornal não trazia lá muito lucro, permitia facilmente fabricar opiniões, disseminá-las e torná-las autoevidentes, sustentando uma distribuição de poder de modo a facilitar a manutenção da grana na mão de quem lha tinha. (não resisti ao lusitanismo). Em palavras menores: a mídia não serve aos donos do poder porque os donos do poder são os donos da mídia.
Uma posição intermediária, por exemplo, como a de Sérgio Leo, que ficou naquela de cachorro de fazenda: faz que vai, mas não vai, entre defender o último recurso do jornalismo investigativo – o sigilo da fonte, nos dois sentidos da coisa – e promover a irremediável proliferação de informações interneticamente… uma posição como essa denota a crise instalada no miolo do jornalismo profissional, evidenciando que os seus fundamentos, como os de qualquer profissão, são contingenciais, historicamente produzidos. Em palavras menores (de novo): ou o jornalista de gabinete aprende a lidar com a nova situação ou vai ter que procurar um outro ofício. Ninguém está interessado em manter o privilégio da informação na mão do cara da redação só porque esse é seu emprego. Ninguém exceto ele mesmo, né não?
Pois bem, com relação à antecipação das entrevistas, a Petrobrás já abriu-dos-peito, como se diz aqui, e só vai publicar a íntegra às 00:00h depois do dia da publicação no respectivo jornal, o que relaxa os ânimos dos empregados e deixa o patrão no canto da parede, sem poder dizer um pio. Vai dizer o que agora?


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Essa história de patentear entrevista é estranha. Música, livro, invenção, até que vai, mas patentear perguntas e respostas? Imagino o nível criativo do entrevistador daqui a alguns anos se a idéia vingar. Ele sempre terá um problema ao usar até uma pergunta simples, como as abaixo:
"Do que você gosta?"
"Você gosta do quê?"
"Tu gostas de quê?"
"Do que você gosta?" (Epa!, essa pergunta pertence à outra pessoa. Reformule-a!)
"Do que vossa mercê gosta?"
e assim vai…
A verdadeira opiniáo do povo só pode ser conhecida por uma eleição séria… Pesquisas, passeatas, mídias, blogs, NÃO representam a vontade popular… Porisso vemos a mídia frustada por não dar origem as reações populares que espera… Não entendem os reflexos de seu trabalho já que se julgam expressão do povo… São passatempo e mais um jeito da sociedade consumista globalizada de empregar, OCUPAR, mais pessoas… A criação do blog da Petrobrás, NESTE momento, com ESTE posicionamento, é claramente uma tentativa de intimidar e desmerecer possíveis informações sobre ela… Como qualquer tentativa de reprimir seitas, religiões, não vai funcionar… Vão encontrar o que ela tenta esconder, mostrar que este era o motivo da empresa ao tentar se `defender` da mídia… Ter um blog para esclarecer, informar diretamente sobre a empresa é quase uma necessidade para toda e qualquer entidade… Publicar perguntas e respostas que venham a fazer sobre ela, na mesma data da publicação pela mídia mostra clara tentativa de intimidar a divulgação de informações desagradáveis… Para isto existe o direito de resposta que, ao ser usado, impõe responsabilidade à mídia, seja qual for… Com esta atitude de publicar o trabalho jornalisticio sobre ela, na integra e em paralelo, somada a escandalosa e aberta tentativa de sabotar a CPI, a Petrobrás está mostrando que tem muito a esconder e INCENTIVANDO ainda mais a CPI e pesquisas jornalisticas sobre a causa desta atitude…