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	<title>Jerimum Beta &#187; Ipsilone</title>
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		<title>Jerimum Beta &#187; Ipsilone</title>
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		<title>Ipsilone: Vocês são o sal&#8230;</title>
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		<pubDate>Sun, 27 Sep 2009 21:40:03 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rondinelly</dc:creator>
				<category><![CDATA[Ipsilone]]></category>
		<category><![CDATA[Papéis avulsos]]></category>

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		<description><![CDATA[Vou apresentar uma novidade muito boa e não vou me incomodar com isso por mais do que uma postagem. Portanto, leia atentamente e trate de se converter urgentemente. Um costume muito feio da nossa geração é batizar a morte de gente do século XX com os nomes dos nossos interesses. São maus modos que disseminam [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Vou apresentar uma novidade muito boa e não vou me incomodar com isso por mais do que uma postagem. Portanto, leia atentamente e trate de se converter urgentemente.</p>
<p style="text-align: justify;">Um costume muito feio da nossa geração é batizar a morte de gente do século XX com os nomes dos nossos interesses. São maus modos que disseminam uma idéia de que devemos salvaguardar essa coisa que chamamos democracia (algo como uma monarquia totalitarista cujo rei se esconde em todos os que dela se beneficia) em nome e em respeito à memória dos que morreram sob regimes totalitaristas, ou na guerra, ou durante a revolução, ou em resistência às ditaduras. Estes são os veneráveis mártires que lutaram e sucumbiram para que chegássemos a um patamar de liberdades as mais diversificadas possíveis.</p>
<p style="text-align: justify;">Não sei se o nome é propício, mas sugiro que chamemos isso de <em>egoísmo histórico determinista.</em> Essa postura faz parte do programa positivista que a maioria de nós no mínimo aceita, a de que a nossa é a melhor das sociedades possíveis. Decidir assim a causa da morte dessas pessoas é mais ou menos como o cristianismo vitorioso decidir que Cristo morreu crucificado para nos salvar. Os nossos mártires não teriam morrido por nada do seu tempo, por nenhuma força ideológica de sua época que eles amaram e assumiram, nem por nenhuma prática sua que por melhor que fosse era ilícita. Eles sacrificaram suas vidas para o nosso bem-estar. Se junta sua inocência à sua boa intenção e conclui-se fervorosamente: só podem ter morrido por nossa causa, para que vivêssemos felizes nesse mundo maravilhoso em que podemos gozar do domínio sobre nós mesmos.</p>
<p style="text-align: justify;">Um argumento que serve a muitos propósitos bem aceitos entre nós, dos quais os mais relevantes são: 1. A certeza de que os problemas do sistema são perfeitamente consertáveis e que essa é uma tarefa para um suposto grupo de pessoas que detém o poder; 2) Na esteira desse, o afastamento do comprometimento com uma modificação significativa na forma como vivemos neste mundo, 3) culminando com o gozo de poder decidir os rumos de sua vida individual: qual roupa, qual carro, qual celular, qual blogue&#8230;<span id="more-1041"></span></p>
<p style="text-align: justify;">A peculiaridade da democracia moderna é justamente o fornecimento da sensação de um poder decisório que, ao mesmo tempo em que é propriedade do indivíduo aparece como destinado a algo muito superior a ele. <em>A política aparece como aquilo que de uma hora pra outra, mais precisamente na hora menos propícia, solicita ao indivíduo que se manifeste sobre questões que parecem não lhe dizer respeito particularmente, mas de cuja abrangência e domínio ele aparentemente não pode escapar.</em></p>
<p style="text-align: justify;">Há uma maneira de tratar o poder que não permite que ele seja percebido nas relações individuais, o poder é objetivado, positivado, coisificado. Falamos do poder com a linguagem desportiva: quem vai ficar com ele, quem vai perdê-lo, na mão de quem ele está, quem vai arrancá-lo, quem vai usá-lo para o bem ou para o mal. O poder é como uma bola ou qualquer outra coisa que pode passar de uma mão para outra e que pode decidir o jogo. Por esse dogma, o que os sujeitos podem decidir sobre sua vida é somente aquilo que lhes afeta particularmente, enquanto as reais e importantes decisões estão em alheio jogo, inacessível e com regras próprias; é de lá, desse centro invisível que virá a redenção da nação: os bons projetos, as boas medidas, o desenvolvimento sustentável, o crescimento da economia, a justiça, a bondade e a prosperidade. O dogma nos garante viver como num video-game, segundo ele de fato não temos o poder de implementar essas modificações, nem mesmo temos a possibilidade de modificar as regras transcendentais do jogo, mas podemos sim decidir a trajetória dos jogadores, podemos decidir quem são os bons e melhores treinados, quem são os de melhor intenção e práticas moralmente louváveis.</p>
<p style="text-align: justify;">O dogma do poder coloca o sujeito em posição pretensamente objetiva de visão e lhe indulta a ilusão de decidir o que deve ter havido ou o que haverá de haver, a essa decisão é dado um caráter de direito e dela se assegura que deve ser baseada na boa fé, na racionalidade e na eficiência&#8230; do outro que se apresenta como portador da salvação. A ilusão de poder decidir se sustenta na esperança depositada mais adiante: no partido, no projeto, no programa, na revolução, no candidato e seu bom humor, ou na candidata e sua eficiência. No fundo e na verdade, essa é a morte da esperança, porque supõe o advento de alguém que nos suprirá a todos com tudo o que necessitamos e que fará, ele mesmo, e tomará como sua tarefa todas as virtudes que frustramos em assumir e disseminar nas relações miúdas, entre amigos, vizinhos, colegas de trabalho e até os desconhecidos ao lado de quem nos sentamos no ônibus. <em>Mata a esperança quem se augura em ser seu legítimo procurador.</em></p>
<p style="text-align: justify;">Uma proposta bem menos romântica, por exemplo, é a do evangelho de Jesus. Ele faz questão de desanimar seus ouvintes quanto a que haja essa pessoa, recomenda que não depositem em ninguém,  muito menos em si mesmos,  essa vã expectativa e desfere o último golpe: exige que cada um assuma a tarefa de modificar a <em>sua</em> maneira própria de se relacionar com o outro (quem quer que seja esse outro) de forma que e esperando que essa mudança provoque um efeito de transformação do mundo inteiro: a<em> salvação do mundo depende da renúncia de uma esperança colocada noutro lugar que não seja no seu Bem, e depende também que eu decida viver agora a forma de vida que eu espero que haja nesse mundo por vir. </em>Por isso que o anúncio da salvação era a própria presença dele, não só uma proposta para quando ganhar as eleições, mas uma prática agora: &#8220;Veja é assim, ó!&#8221;</p>
<p style="text-align: justify;">Um primeiro passo é rejeitar essa tendência intimista de acreditar que o poder está em ti. Não, ele não está em ti, porque ele não existe assim de-se-pegar, nem se concentra numa ponta do cordão. O poder é um modo de se relacionar, uma jogo de posições&#8230; E a proposta insana acima apresentada recomenda que você não deseje participar desse jogo, porque não é de uma ou outra posição nesse jogo que a salvação virá – as regras são outras&#8230;  A autoridade de quem vive assim não vem das posições constituídas desde sempre – ou seja, não está em você nem no sistema de posições constituído, ela surge da renúncia a esse sistema de posições, da vivência de uma outra realidade dentro deste mundo, do Alto, como diz inocentemente o escritor do evangelho.. <em>Embora não esteja em mim, a salvação do mundo depende de que eu deixe ela se manifestar em mim. </em>Como você vê, Jesus acreditou em nós, pobrezinho&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;">A esperança política é mais viva quanto mais evanescente, imprecisa e vaga for a sua manifestação verbal, quanto menos o meu programa se referir a generalidades e quanto mais a mim e à minha posição ele me disser algo &#8211; ali onde a esperança se imiscui nas relações mais comezinhas, se infiltra por dentro de onde a pessoa existe e aparece nas saudações matinais, na carona dada ao vizinho, na carona oferecida pelo colega, no oferecimento do cafezinho, na conversa distraída da lanchonete, no apoio a quem sofre de qualquer coisa, na indignação contra toda submissão tola, na desconfiança da sorridente retórica dos bem intencionados, no desprezo a uma verdade cuja textualidade não carrega a carne ou o sangue de um sujeito&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;">Se eu fosse você, relevaria tudo que eu disse e iria aos lugares de onde me vieram essas idéias: <a href="http://www.baciadasalmas.com/2007/a-cidade-invisivel-sobre-o-monte/">este </a>e <a href="http://atrilha.blogspot.com/2009/08/porque-eu-nao-quero-mais-ir-igreja.html">este aqui</a>.</p>
<p style="text-align: center;"><img class="alignnone size-full wp-image-206" title="y" src="http://jerimumbeta.com.br/wp-content/uploads/2009/06/y.jpg" alt="y" width="57" height="57" /></p>
<p style="text-align: justify;">
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		<title>Ipsilone: A quem entender possa</title>
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		<pubDate>Thu, 10 Sep 2009 20:22:54 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rondinelly</dc:creator>
				<category><![CDATA[Ipsilone]]></category>
		<category><![CDATA[Papéis avulsos]]></category>

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		<description><![CDATA[Antigamente, isto é, há poucos dias, eu julgava haver compreendido e poder atacar a causa fundamental da discórdia: o mal-entendido. Considerei a lingüística e a psicanálise moçoilas frouxas que, por covardia,  nunca se lançariam contra o dragão do desentendimento fundamental, deixando à mercê do fogo de suas narinas os múltiplos significados com que essa teia [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Antigamente, isto é, há poucos dias, eu julgava haver compreendido e poder atacar a causa fundamental da discórdia: o mal-entendido. Considerei a lingüística e a psicanálise moçoilas frouxas que, por covardia,  nunca se lançariam contra o dragão do desentendimento fundamental, deixando à mercê do fogo de suas narinas os múltiplos significados com que essa teia nos sufoca e nos impede de chegar a conhecer qualquer pessoa, muito menos a nós. A solução: para cada objeto, para cada imaginação, para cada sensação, para cada conjunto de cada coisa, inventar uma nova palavra, pessoal e intransferível, sem essa espécie de procuração da fala, pela qual a linguagem coroneliza nossos desejos e manipula nossas intenções e, nos casos comuns, impede o perdão de existir.</p>
<p style="text-align: justify;">No meio da glória que supunha me esperar pela portentosa invenção, me (re)aparece essa situação monstra e aterrorizante de um amigo, dos mais próximos, daqueles mais queridos, deixar-se entreter por essa maledicência da Senhora Linguagem, beber o veneno do mal-entendido, que cega os olhos para a luminosa verdade histórica do companheirismo e emouquece os ouvidos para a barulhenta manifestação de afeto de uma amizade duradoura. Meu amigo ficou bêbado do que ouviu e entendeu o que não ouviu, assim como eu havia ficado bêbado da solução para um problema que não existe. Resgatei do fundo do baú, nem tão fundo assim, um texto escrito em ocasião parecida, em outra pracinha da internet, onde jogo no vento essas bobagens sem fundamento nem nexo que minha idiotice se recusa a calar. Ei-la, pronta como uma feijoada para essa ocasião estapafúrdia, com as devidas adaptações:</p>
<p style="text-align: center;"><img class="alignnone size-full wp-image-922" title="quebrado" src="http://jerimumbeta.com.br/wp-content/uploads/2009/09/quebrado.gif" alt="quebrado" width="271" height="166" /></p>
<p style="text-align: justify;">Meu amigo,</p>
<p style="text-align: justify;">Toda essa discussão, como a maioria das discussões mundo adentro, está baseada num equívoco fundamental. E atenção que eu posso estar prestes a revelar o Segredo portentoso: o equívoco fundamental é o fato de não podermos nunca transmitir substancialmente a quem quer que seja esse gostoso incômodo que nos acompanha vida afora, isso que há com a nossa existência e que é tão íntimo que parece outra coisa, essa coisa como um indivíduo que achamos haver sempre para além do indivíduo que achamos ser; como um pesado saco de guloseimas que nos recusamos a largar, sob pena de não sabermos mais o significado do que é doce. O contrário também é exato: somos incertos, e não deixaremos de sê-lo, acerca do que seja realmente, dentro das veias e dos nervos e dos ossos e nos arrepios, a pessoa que vai ali, demonstrando sem pudores estar viva . Riobaldo Tatarana descarrega a terrível questão que não se pode solucionar: &#8220;O que é que uma pessoa é, assim por detrás dos buracos dos ouvidos e dos olhos?&#8221;</p>
<p>Se você ficou decepcionado com a revelação, é porque ela não revela nada, mesmo. Estamos constantemente prestes a revelar a verdade, mas na hora da verdade&#8230; &#8220;ôxe&#8230; onde foi ela foi parar? Acredite, ela estava qui agorinha, &#8216;cê não viu?&#8221; O Segredo Portentoso é não poder haver segredo num mundo escancarado como esse; o mistério é supormos mistérios&#8230;</p>
<p>Ou seja, nem nossos grunhidos fonéticos exprimem &#8211; por mais teatrais que sempre sejam &#8211; o que se passa no de-dentro, nem poderemos saber de certo e de fato o que danado acontece no nó individual desta pessoa que está aqui na minha frente cheia de ruídos e gestos. Essa solidão compartilhada esconde-se no engodo que são nossas certezas; nos vingamos desse ermo emitindo conceitos e juízos aleatoriamente, que consideramos saídos do forno, quando já estão é azedando sobre a mesa.</p>
<p>O azedume é uma fermentação narrativa para explicar qualquer coisa segundo os padrões de coisas já acontecidas &#8211; se eu fosse menos prolixo, teria dito simplesmente: &#8220;Não ligue! O cheiro de azedo é da interpretação.&#8221;</p>
<p>Daí que foi da fermentação das afirmações de um sujeito sobre si mesmo pela boca de outrem que se nutriram os impérios ruidosos, as guerras devoradoras de gente, os místicos mais apaixonantes, as vidas mais inimitáveis, o impossível amor cortês, a improvável ciência da vida, a religião mais implacavelmente humana, a lei mais impunemente branda, a corrupção generalizada, o perdão universal, a certeza da vida eterna, a civilização, o inconsciente, a teologia do processo, e, por último, a azáfama do cenho franzido do meu amigo e todo o constrangimento que isso causou a nós&#8230;</p>
<p>A discussão em questão se baseia na suposição que todo mundo fez sobre tudo o que todo mundo disse e sobre o que todo mundo queria dizer quando disse tudo&#8230;</p>
<p>Sinto lhe informar que neste mundo os textos todos são servidos fermentados. Deseja Malbec ou Cabernet-Sauvignon?</p>
<p style="text-align: justify;">(texto originalmente publicado <a href="http://sdcaustica.blogspot.com/2009/05/travessia-da-fantasia-epilogo-da-coisa.html">aqui</a>)</p>
<p style="text-align: center;"><img class="alignnone size-full wp-image-206" title="y" src="http://jerimumbeta.com.br/wp-content/uploads/2009/06/y.jpg" alt="y" width="72" height="72" /></p>
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		<title>Profeta de um mundo pelo avesso</title>
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		<pubDate>Thu, 03 Sep 2009 23:34:44 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rondinelly</dc:creator>
				<category><![CDATA[Ipsilone]]></category>
		<category><![CDATA[Papéis avulsos]]></category>

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		<description><![CDATA[Hoje é o aniversário de um dos escritores mais lúcidos e coerentes do nosso tempo: o uruguaio Eduardo Galeano porta o mistério profético de abrir os olhos aos cegados pelas histórias dos vencedores. É o tipo de leitura obrigatória antes do desfalecimento ou da loucura. Abaixo, trechos do seu mais recente livro. * * * [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Hoje é o aniversário de um dos escritores mais lúcidos e coerentes do nosso tempo: o uruguaio <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Eduardo_Galeano">Eduardo Galeano</a> porta o mistério profético de abrir os olhos aos cegados pelas histórias dos vencedores. É o tipo de leitura obrigatória antes do desfalecimento ou da loucura.</p>
<p style="text-align: center;"><img class="size-full wp-image-878 aligncenter" title="galeano" src="http://jerimumbeta.com.br/wp-content/uploads/2009/09/galeano.jpg" alt="galeano" /></p>
<p style="text-align: justify;">Abaixo, trechos do seu mais recente livro.</p>
<p style="text-align: center;">* * *</p>
<p style="text-align: center;">Os espelhos estão cheios de gente.<br />
Os invisíveis nos vêem.<br />
Os esquecidos se lembram de nós.<br />
Quando nos vemos, os vemos.<br />
Quando nos vamos, se vão?</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>De desejo somos</strong><br />
A vida, sem nome, sem memória, estava sozinha. Tinha mãos, mas não tinha em quem tocar. Tinha boca, mas não tinha com quem falar. A vida era uma, e sendo uma era nenhuma. Então o desejo disparou sua ﬂecha. E a ﬂ echa do desejo partiu a vida pela metade, e a vida tornou-se duas. As duas metades se encontraram e riram. Ao se ver, riam; e ao se tocar, também.
</p>
<p style="text-align: justify;">
<p style="text-align: justify;"><strong>Como pudemos?</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Ser boca ou bocado, caçador ou caçado. Essa era a questão.</p>
<p style="text-align: justify;">Merecíamos é desprezo, no máximo pena. Na intempérie inimiga, ninguém nos respeitava e ninguém nos temia. A noite e a selva nos causavam terror. Éramos os bichos mais vulneráveis da zoologia terrestre, ﬁ lhotes inúteis, adultos de nada, sem garras, nem grandes presas, nem patas velozes, nem olfato longo.</p>
<p style="text-align: justify;">Nossa primeira história nos perde na neblina. Pelo que parece, estávamos dedicados a partir pedras e repartir porradas e nada mais.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas a gente até que pode se perguntar: Será que não fomos capazes de sobreviver, quando sobreviver era impossível, porque soubemos nos defender juntos e juntos compartilhar a comida?</p>
<p style="text-align: justify;">Esta humanidade de agora, esta civilização do salve-se quem puder e cada na sua, teria durado algo mais que um instantinho neste mundo?</p>
<p style="text-align: justify;">
<p style="text-align: justify;"><strong>Dominantes e dominados</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Diz a Bíblia de Jerusalém que Israel foi o povo que Deus escolheu, o povo ﬁlho de Deus. E de acordo com o salmo segundo, a esse povo eleito foi outorgado o domínio do mundo:</p>
<p style="text-align: justify;">Peça-me, e te darei em herança as nações e serás dono dos conﬁns da terra.</p>
<p style="text-align: justify;">Mas o povo de Israel dava muitos desgostos, por ser ingrato e por ser pecador. E segundo as más línguas, após muitas ameaças, maldições e castigos, Deus perdeu a paciência.</p>
<p style="text-align: justify;">Desde então, outros povos se atribuíram o presente.</p>
<p style="text-align: justify;">No ano de 1900, o senador Albert Beveridge revelou: – Deus escolheu o povo dos Estados Unidos para iniciar a regeneração do mundo.</p>
<p style="text-align: justify;">
<p style="text-align: justify;"><strong>Americanos</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Conta a história oficial que Vasco Núñez de Balboa foi o primeiro homem que viu, desde um cume do Panamá, os dois oceanos. Os que ali viviam, eram cegos?</p>
<p style="text-align: justify;">Quem colocou seus primeiros nomes no milho e na batata e no tomate e no chocolate e nas montanhas e nos rios da América? Hernán Cortés, Francisco Pizarro? Os que ali viviam, eram mudos?</p>
<p style="text-align: justify;">Os peregrinos do Mayflower escutaram: Deus dizia que a América era a Terra Prometida. Os que ali viviam, eram surdos?</p>
<p style="text-align: justify;">Depois, os netos daqueles peregrinos do norte apoderaram-se do nome e de todo o resto. Agora, americanos são eles. Os que vivemos nas outras Américas, o que somos?</p>
<p><strong> </strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Fundação dos desaparecimentos</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Milhares de mortos sem sepultura deambulam pela pampa argentina. São os desaparecidos da última ditadura militar.</p>
<p style="text-align: justify;">A ditadura do general Videla aplicou em escala jamais vista o desaparecimento como arma de guerra. Aplicou, mas não inventou. Um século antes, o general Roca utilizou contra os índios esta obra prima da crueldade, que obriga cada morto a morrer várias vezes e que condena seus queridos a ficarem loucos perseguindo sua sombra fugitiva.</p>
<p style="text-align: justify;">Na Argentina, como em toda a América, os índios foram os primeiros desaparecidos. Desapareceram antes de aparecer. O general Roca chamou de conquista do deserto a sua invasão das terras indígenas. A Patagônia era um espaço vazio, um reino do nada, habitado por ninguém.</p>
<p style="text-align: justify;">E os índios continuaram desaparecendo depois. Os que se submeteram e renunciaram à terra e a tudo, foram chamados de índios reduzidos: reduzidos até desaparecer. E os que não se submeteram e foram vencidos à bala e sabraços, desapareceram transformados em números, mortos sem nome, nos comunicados militares. E seus filhos desapareceram também: repartidos como butim de guerra, chamados com outros nomes, esvaziados de memória, escravinhos dos assassinos de seus pais.</p>
<p style="text-align: justify;">
<p style="text-align: justify;">Eduardo Galeano. <strong><em>Espelhos: uma história quase universal.</em></strong></p>
<p style="text-align: justify;">
<p style="text-align: center;"><img class="size-full wp-image-206 aligncenter" title="y" src="http://jerimumbeta.com.br/wp-content/uploads/2009/06/y.jpg" alt="y" width="51" height="51" /></p>
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		<title>Ipsilone: Tapas</title>
		<link>http://jerimumbeta.com.br/ipsilone</link>
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		<pubDate>Sat, 15 Aug 2009 16:42:33 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rondinelly</dc:creator>
				<category><![CDATA[Ipsilone]]></category>
		<category><![CDATA[José Régio]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[literatura portuguesa]]></category>
		<category><![CDATA[Nietzsche]]></category>
		<category><![CDATA[Poesia]]></category>

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		<description><![CDATA[I &#8211; O ARGUMENTO O êxtase do estado dionisíaco, com sua destruição das cadeias e limites costumeiros da existência, contém, naturalmente, durante todo o período em que dura, um elemento letárgico no qual permanece submerso tudo que a pessoa já experimentou pessoalmente no passado. (&#8230;) Porém tão logo a realidade cotidiana retorna à consciência, a [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><strong>I &#8211; O ARGUMENTO</strong></p>
<p style="text-align: justify;">O êxtase do estado dionisíaco, com sua destruição das cadeias e limites costumeiros da existência, contém, naturalmente, durante todo o período em que dura, um elemento letárgico no qual permanece submerso tudo que a pessoa já experimentou pessoalmente no passado. (&#8230;) Porém tão logo a realidade cotidiana retorna à consciência, a pessoa a percebe como algo repulsivo. O resultado desse estado é a condição ascética, na qual a pessoa nega o poder da vontade. (&#8230;) É o verdadeiro conhecimento, o vislumbre da cruel verdade, que vence cada motivo que poderia impeli-los a agir, tanto em Hamlet quanto no homem dionisíaco. Agora nenhum consolo tem mais efeito. Ele passa a ansiar por algo além do mundo, algo além dos próprios deuses, na direção da morte. (&#8230;) Neste ponto, quando a vontade está sob o mais grave perigo, entra a arte, na qualidade de mágica salvadora e curativa. Somente a arte é capaz de transformar esses pensamentos de repulsa diante do horror ou do absurdo da existência em conceitos imaginários que permitem que a vida continue.</p>
<p style="text-align: right;"><a title="Nietzsche na Wikipedia" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Friedrich_Nietzsche" target="_blank">Frederico Guilherme Nietzsche.</a> <em>O nascimento da tragédia</em></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>II &#8211; O EXPERIMENTO</strong> (Leia compassadamente, compassivamente)</p>
<h3 style="text-align: center;"><span style="color: #000000;">CÂNTICO NEGRO<br />
</span></h3>
<p><span style="font-family: Verdana; font-size: x-small;"> </span></p>
<p>&#8220;Vem por aqui&#8221; — dizem-me alguns com os olhos doces<br />
Estendendo-me os braços, e seguros<br />
De que seria bom que eu os ouvisse<br />
Quando me dizem: &#8220;vem por aqui!&#8221;<br />
Eu olho-os com olhos lassos,<br />
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)<br />
E cruzo os braços,<br />
E nunca vou por ali&#8230;<br />
A minha glória é esta:<br />
Criar desumanidades!<br />
Não acompanhar ninguém.<br />
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade<br />
Com que rasguei o ventre à minha mãe<br />
Não, não vou por aí! Só vou por onde<br />
Me levam meus próprios passos&#8230;<br />
Se ao que busco saber nenhum de vós responde<br />
Por que me repetis: &#8220;vem por aqui!&#8221;?</p>
<p>Prefiro escorregar nos becos lamacentos,<br />
Redemoinhar aos ventos,<br />
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,<br />
A ir por aí&#8230;<br />
Se vim ao mundo, foi<br />
Só para desflorar florestas virgens,<br />
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!<br />
O mais que faço não vale nada.</p>
<p>Como, pois, sereis vós<br />
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem<br />
Para eu derrubar os meus obstáculos?&#8230;<br />
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,<br />
E vós amais o que é fácil!<br />
Eu amo o Longe e a Miragem,<br />
Amo os abismos, as torrentes, os desertos&#8230;</p>
<p>Ide! Tendes estradas,<br />
Tendes jardins, tendes canteiros,<br />
Tendes pátria, tendes tetos,<br />
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios&#8230;<br />
Eu tenho a minha Loucura !<br />
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,<br />
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios&#8230;<br />
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!<br />
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;<br />
Mas eu, que nunca principio nem acabo,<br />
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.</p>
<p>Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,<br />
Ninguém me peça definições!<br />
Ninguém me diga: &#8220;vem por aqui&#8221;!<br />
A minha vida é um vendaval que se soltou,<br />
É uma onda que se alevantou,<br />
É um átomo a mais que se animou&#8230;<br />
Não sei por onde vou,<br />
Não sei para onde vou<br />
Sei que não vou por aí!</p>
<p style="text-align: right;"><a title="José Régio" href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Jos%C3%A9_R%C3%A9gio" target="_blank">José Régio</a></p>
<p style="text-align: center;"><img class="alignnone size-full wp-image-206" title="y" src="http://jerimumbeta.com.br/wp-content/uploads/2009/06/y.jpg" alt="y" width="54" height="54" /></p>
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		<title>A luta contra a solidão</title>
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		<pubDate>Mon, 20 Jul 2009 13:11:44 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rondinelly</dc:creator>
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		<category><![CDATA[luta]]></category>
		<category><![CDATA[Romain Rolland]]></category>
		<category><![CDATA[Rubem Alves]]></category>
		<category><![CDATA[silêncio]]></category>
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		<description><![CDATA[Lembrei-me dele e senti saudades…Tanto tempo que a gente não se vê! Dei-me conta, com uma intensidade incomum, da coisa rara que é a amizade. E, no entanto, é a coisa mais alegre que a vida nos dá. A beleza da poesia, da musica, da natureza, as delicias da boa comida e da bebida perdem [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Lembrei-me dele e senti saudades…Tanto tempo que a gente não se vê! Dei-me conta, com uma intensidade incomum, da coisa rara que é a amizade. E, no entanto, é a coisa mais alegre que a vida nos dá. A beleza da poesia, da musica, da natureza, as delicias da boa comida e da bebida perdem o gosto e ficam meio tristes quando não temos um amigo com quem compartilhá-lhas. Acho mesmo que tudo o que fazemos na vida pode se resumir a isto: a busca de um amigo, uma luta contra a solidão…Lembrei-me de um trecho de Jean-Christophe, que li quando era jovem, e do qual nunca me esqueci. Romain Rolland descreve a primeira experiência com a amizade do seu herói adolescente. Já conhecera muitas pessoas nos curtos anos de sua vida. Mas o que experimentava naquele momento era diferente de tudo o que já sentira antes. O encontro acontecera de repente, mas era como se já tivessem sido amigos a vida inteira. A experiência da amizade parece ter suas raízes fora do tempo, na eternidade. Um amigo é alguém com quem estivemos desde sempre. Pela primeira vez, estando com alguém, não sentia necessidade de falar. Bastava a alegria de estarem juntos, um ao lado do outro.“Christophe voltou sozinho dentro da noite. Seu coração cantava “Tenho um amigo, tenho um amigo”! Nada via. Nada ouvia. Não pensava em mais nada. Estava morto de sono e adormeceu assim que se deitou. Mas durante a noite foi acordado duas ou três vezes, como que por uma idéia fixa. Repetia para si mesmo:”Tenho um amigo”, e tornava a adormecer.” Jean-Christophe compreendera a essencia da amizade. Amiga é aquela pessoa em cuja companhia não é preciso falar. Você tem aqui um teste para saber quantos amigos você tem. Se o silencio entre vocês dois lhe causa ansiedade, se quando o assunto foge você se poe a procurar palavras para encher o vazio e manter a conversa animada, então a pessoa com quem você está não é amiga. Porque um amigo é alguém cuja presença procuramos não por causa daquilo que se vai fazer juntos, seja bater papo, comer, jogar ou transar. Ate que tudo isso pode acontecer. Mas a diferença está em que, quando a pessoa não é amiga, terminado o alegre e animado programa, vem o silencio e o vazio – que são insuportáveis. Nesse momento o outro se transforma num incomodo que entulha o espaço e cuja despedida se espera com ansiedade. Com o amigo é diferente. Não é preciso falar. Basta a alegria de estarem juntos, um ao lado do outro. Amigo é alguém cuja simples presença traz alegria independentemente do que se faça ou diga. A amizade anda por caminhos que não passam pelos programas. Uma estória oriental conta de uma arvore solitária que se via no alto da montanha. Não tinha sido sempre assim. Em tempos passados a montanha estivera coberta de arvores maravilhosas, altas e esguias, que os lenhadores cortaram e venderam. Mas aquela arvore era torta, não podia ser transformada em tabuas. Inútil para os seus propósitos, os lenhadores a deixaram lá. Depois vieram os caçadores de essências em busca de madeiras perfumadas. Mas a arvore torta, por não ter cheiro algum, foi desprezada e lá ficou. Por ser inútil, sobreviveu. Hoje ela está sozinha na montanha. Os viajantes se assentam sob a sua sombra e descansam. Um amigo é como aquela arvore. Vive de sua inutilidade. Pode ate ser útil eventualmente, mas não é isso que o torna um amigo. Sua inútil e fiel presença silenciosa torna a nossa solidão uma experiência de comunhão. Diante do amigo sabemos que não estamos só. E alegria maior não pode existir.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.rubemalves.com.br/">Rubem Alves</a></p>
<p style="text-align: justify;">Passo pelo vexame da comoção, depois de ler esse texto. Grato que sou aos que me ladeiam na travessia da existência, me certifico de que compartilhamos as solidões. Amigos de lascar, de tirar onda, de tirar de tempo, de pagar meu lanche, de fumar o mesmo cigarro, de sair pelo mei-do-mundo sem nada pra fazer, de pegar a mortadela do meu misto-quente, de não levar a sério quando eu mando visitar o vaso sanitário, de rir das minhas risadas&#8230;</p>
<p style="text-align: center;"><img class="size-full wp-image-206 aligncenter" title="y" src="http://jerimumbeta.com.br/wp-content/uploads/2009/06/y.jpg" alt="y" width="47" height="47" /></p>
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		<title>Ipsilone: Teologia de Rodoviária</title>
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		<pubDate>Wed, 01 Jul 2009 13:01:45 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rondinelly</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Nossa Senhora]]></category>
		<category><![CDATA[rodoviária]]></category>
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		<description><![CDATA[Dia desses, por volta das dez da noite, nalguma rodoviária da Paraíba, eu estava na invejada situação de esperar o ônibus para dali a meia hora ou mais. Não bastando, algum deus pôs uma cereja no bolo me inspirando a escolher para descanso, dentre centenas de cadeiras vazias, a que abrigava uma poética poça de [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Dia desses, por volta das dez da noite, nalguma rodoviária da Paraíba, eu estava na invejada situação de esperar o ônibus para dali a meia hora ou mais. Não bastando, algum deus pôs uma cereja no bolo me inspirando a escolher para descanso, dentre centenas de cadeiras vazias, a que abrigava uma poética poça de água sanitária. Dou a imagem: sentindo os fundilhos ensopados, levantei-me vagarosamente, com o inútil ensejo de não chamar a atenção de ninguém; inútil, porque a boca não seguiu essa ordem e soltou alguns termos adequados para o momento. Revirei no máximo o pescoço para avistar a bunda da calça, passando nela a mão e levando-a (a mão, não a calça) ao nariz, julguei como “mediano” o grau de perigo e de vergonha: há coisas piores com que molhar a calça.</p>
<p style="text-align: justify;">Pois bem: essa agonia terminou de modo súbito pela discussão acalorada e em alta voz em que se meteram alguns esperantes como eu. Uns deles, bêbados, aperriavam um pobre dum crente que tava por perto, certamente conhecido dos tais, afrontando a sua crença com uma mistura de pegadinhas, piadas e afirmações doutrinais. No limite do farnizim, quando os caras exaltaram a protetora dos vaqueiros Nossa Senhora Aparecida e tal, o irmão lascou essa pérola na cara dos amigos e dos transeuntes: “ ‘cabe com isso, rapá: no céu mulher não manda, não! No céu quem manda é homem!”</p>
<p style="text-align: justify;">Fariseu que sou, não pude deixar de ponderar que cloro desbotando a calça é melhor do que doutrina desbotando a fé.</p>
<p style="text-align: center;"><img class="alignnone size-full wp-image-235" title="y-neg-sb1" src="http://jerimumbeta.com.br/wp-content/uploads/2009/06/y-neg-sb1.gif" alt="y-neg-sb1" width="49" height="52" /></p>
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		<title>Ipsilone: O descrente</title>
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		<pubDate>Mon, 29 Jun 2009 17:14:23 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rondinelly</dc:creator>
				<category><![CDATA[Ipsilone]]></category>
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		<description><![CDATA[“&#8230; acreditar em si mesmo é uma das marcas mais comuns de um patife. Atores que não sabem representar acreditam em si mesmos; e os devedores que não pagarão, também. Seria muito mais verdadeiro dizer que um homem certamente fracassará por acreditar em si mesmo.” G. K. Chesterton. Ortodoxia. O menino fora criado para a [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: right;"><em>“&#8230; acreditar em si mesmo é uma das marcas mais comuns de um patife. Atores que não sabem representar acreditam em si mesmos; e os devedores que não pagarão, também. Seria muito mais verdadeiro dizer que um homem certamente fracassará por acreditar em si mesmo.” </em></p>
<p style="text-align: right;">G. K. Chesterton. <strong>Ortodoxia</strong>.</p>
<p style="text-align: justify;">O menino fora criado para a fantasia fulgurante da fama, educado para uma carreira típica do barroco colonial, seria médico, seria advogado, seria padre. As limitações próprias da pobreza não foram de modo algum um obstáculo para a projeção brilhante, até pelo contrário, caso se levasse em conta as biografias louvadas e recontadas dos que ascenderam de gado de corte a vaqueiro valente.</p>
<p style="text-align: justify;">Toda vez que se dava conta de que havia um mundo e que este existia para si, o menino afirmava seu auge. Qualquer idade, na qual estivesse, era o seu cúmulo. Protegido por todos os que lhe amavam, nada precisava fazer, desde que aceitasse tudo o que lhe faziam. Permitiam tudo a ele, desde que ele consentisse no oferecimento do universo pré-fabricado que lhe faziam os seus acólitos. E todos eram seus acólitos. Sua santidade foi a da separação criteriosa, não a da singularidade. Para a sua perfeição desinteressavam-se dos pequenos deslizes de agora: as birras da criança, as espinhas do adolescente, o aborrecimento do menino crescido, tudo isso era descartado como intempéries fora do script, que logo seriam recobertas pela luz duradoura do sucesso. Nem as armas, nem as enxadas; nem a política, nem os negócios; nada que com as mãos e com o suor fosse feito, nada que com subterfúgios e entre ciladas fosse conseguido era digno do menino crescido que confiava ser digno do mundo.</p>
<p style="text-align: justify;">Sendo separado, santo, estava completo, sem a brecha de desconfiar.</p>
<p style="text-align: justify;">No fim, ou no começo – isso depende de onde se observa, o menino crescido, que era recheado de afirmações e recoberto de certezas, que só podia acreditar em si mesmo, que fora formatado para a nobreza soberba, num átimo de descuido teve acesso à súbita compreensão dolorida da única verdade que se pode compreender: a de que pouco mais que nada é o que um homem pode saber, compreender e planejar; a de que quanto mais controlamos o que queremos ser menos aí  somos.  A réstia da desconfiança se instalou no escuro daquela plenitude – o clarão casual de um erro incontornável revelou ao menino crescido que ele ainda não havia nascido.</p>
<p style="text-align: justify;">Coberta de cinza, a tessitura do texto com que ele se anunciava ao mundo não tinha mais coesão, sua biografia caía aos pedaços largos, entendia que não havia sido uma pessoa, de que não houvera um indivíduo, de que existira apenas uma história mal-contada, um mal-entendido. Conheceu sua estória e foi expulso de si mesmo, nu e solitário. Era um sertão, e como as peles das plantas na interminável seca, o menino crescido estava despido, e a partir daí compreendia o que era a sede. Sabendo o que era o medo e a indecisão, podia saber o que era confiar.</p>
<p style="text-align: justify;">Desconfiou e conheceu. Pecou e podia saber o que era a fé.</p>
<p style="text-align: center;"><img class="alignnone size-full wp-image-206" title="y" src="http://jerimumbeta.com.br/wp-content/uploads/2009/06/y.jpg" alt="y" width="54" height="54" /></p>
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		<title>Ipsilone: Contestações 1 &#8211; O acanalhamento de uma profissão</title>
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		<pubDate>Thu, 11 Jun 2009 18:58:08 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rondinelly</dc:creator>
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		<description><![CDATA[A Imprensa Corporativa essa semana botou a lógica na gaveta, deu uma photoshopada na legislação de direitos autorais e adicionou uma demão de óleo de peroba nas faces. Toda essa arrumação por conta da inauguração do blogue da Petrobrás, (boa) idéia da Direção da empresa para evitar os corriqueiros transtornos que as redações provocam recortando [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">A Imprensa Corporativa essa semana botou a lógica na gaveta, deu uma photoshopada na legislação de direitos autorais e adicionou uma demão de óleo de peroba nas faces. Toda essa arrumação por conta da inauguração do <a href="http://petrobrasfatosedados.wordpress.com/" target="_blank">blogue da Petrobrás</a>, (boa) idéia da Direção da empresa para evitar os corriqueiros transtornos que as redações provocam recortando as declarações e editando as entrevistas da forma mais conveniente para os seus interesses, ou suas opiniões, tanto faz. Usar uma plataforma gratuita como a Santa WordPress, então veio a calhar, porque a empresa é estatal (mista, vá lá, mas com maioria de ações do governo), e aí já seria uma celeuma maior pagar pra publicar o blogue.</p>
<p style="text-align: justify;">Em resumo: o sacrilégio do blogue foi ter publicado o conteúdo de algumas entrevistas antes da publicação destas nos seus respectivos órgãos (O Globo, O Estadão). Isso chateou por demais os donos-de-notícia. <a href="http://oglobo.globo.com/pais/mat/2009/06/08/editorial-ataque-imprensa-756256898.asp" target="_blank">Em editoria</a>l, O Globo chegou a propor que as perguntas eram propriedade intelectual do entrevistador. Entre o desentendimento e o riso, na hora, tive o impulso de correr no cartório e patentear o reincidente: “Como vai sua família?”</p>
<p style="text-align: justify;">Levando a cúmulo, o entrevistado também é proprietário de suas respostas e a gente pode brincar agora de patentear perguntas e respostas, já que umas não têm nada a ver com as outras, lógico, dã! O jornalista é livre para publicar sua pergunta e eu, a minha resposta. Tipo:</p>
<p style="text-align: justify;">“ – Que medidas o STF está tomando para acabar com a farra das vagas para deficientes em ambientes públicos? [Heraldo Pereira®]<br />
– Sim, acho bolo de milho uma iguaria formidável! [Gilmar Mendes®]&#8221;</p>
<p style="text-align: justify;">[Se você ainda não entendeu o porquê desse exemplo, <a href="http://amascaracaiu.blogspot.com/2009/06/suprema-deficiencia-moral-gilmar-mendes.html" target="_blank">veja isso</a>.]</p>
<p style="text-align: justify;">Na verdade, essa gritaiada toda são os últimos apupos de um modelo de circulação de informações em franco processo de putrefação.  Os Jornalões impressos, edições televisivas lateralizadas e notícias padronizadas em grandes conglomerados de rádio já não têm mais o monopólio da opinião ou da difusão de notícias. A informação, durante o <em>boom</em> das tecnologias de radiodifusão, havia se tornado uma mercadoria industrializada, feita nos padrões taylor-fordista. Essa produção ficou aglutinada em redor dos grupos rentáveis economicamente e, se um ter um jornal não trazia lá muito lucro, permitia facilmente fabricar opiniões, disseminá-las e torná-las autoevidentes, sustentando uma distribuição de poder de modo a facilitar a manutenção da grana na mão de quem lha tinha. (não resisti ao lusitanismo). Em palavras menores: a mídia não serve aos donos do poder porque os donos do poder são os donos da mídia.</p>
<p style="text-align: justify;">Uma posição intermediária, por exemplo, como a de <a href="http://verbeat.org/blogs/sergioleo/2009/06/por-que-jornalistas-experientes-fingem-nao-ver-que-a-petrobras-age-errado.html" target="_blank">Sérgio Leo</a>, que ficou naquela de cachorro de fazenda: faz que vai, mas não vai, entre defender o último recurso do jornalismo investigativo – o sigilo da fonte, nos dois sentidos da coisa – e promover a irremediável proliferação de informações interneticamente&#8230; uma posição como essa denota a crise instalada no miolo do jornalismo profissional, evidenciando que os seus fundamentos, como os de qualquer profissão, são contingenciais, historicamente produzidos. Em palavras menores (de novo): ou o jornalista de gabinete aprende a lidar com a nova situação ou vai ter que procurar um outro ofício. Ninguém está interessado em manter o privilégio da informação na mão do cara da redação só porque esse é seu emprego. Ninguém exceto ele mesmo, né não?</p>
<p style="text-align: justify;">Pois bem, com relação à antecipação das entrevistas, <a href="http://petrobrasfatosedados.wordpress.com/2009/06/11/respostas-da-petrobras-ao-jornal-folha-de-s-paulo/" target="_blank">a Petrobrás já abriu-dos-peito</a>, como se diz aqui, e só vai publicar a íntegra às 00:00h depois do dia da publicação no respectivo jornal, o que relaxa os ânimos dos empregados e deixa o patrão no canto da parede, sem poder dizer um pio. Vai dizer o que agora?</p>
<p style="text-align: center;"><img class="size-full wp-image-235 aligncenter" title="y-neg-sb1" src="http://jerimumbeta.com.br/wp-content/uploads/2009/06/y-neg-sb1.gif" alt="y-neg-sb1" width="55" height="58" /></p>
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		<title>Ipsilone: De como orientações técnicas se tornam fina filosofia</title>
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		<pubDate>Wed, 10 Jun 2009 13:18:55 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rondinelly</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Se você seguir, ainda que sem muita concentração, um pouco da história das idéias e da filosofia, perceberá que aqueles pensamentos geminais e verdadeiramente inaugurais emergem em períodos que permitem uma relação mais livre e espontânea com a filosofia. Nas chamadas escolas filosóficas helênicas (a eleática, a pitagórica, a socrática), os indivíduos desenvolviam suas idéias [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Se você seguir, ainda que sem muita concentração, um pouco da história das idéias e da filosofia, perceberá que aqueles pensamentos geminais e verdadeiramente inaugurais emergem em períodos que permitem uma relação mais livre e espontânea com a filosofia. Nas chamadas escolas filosóficas helênicas (a eleática, a pitagórica, a socrática), os indivíduos desenvolviam suas idéias e apuravam as técnicas para convencer os outros dela, em passeios ao ar livre, no meio da feira, em conversas casuais, em banquetes com muita comida, vinho e algazarra. Enfim, na hora mais propícia para o exercício inconsciente da liberdade de pensamento era que o pensamento se mostrava livre e produzia efeito criador.</p>
<p style="text-align: justify;">Pois muito que bem, numa dessas praças públicas da internet, o jovem rapaz de alcunha Turuna encontrou seu amigo Epaminondas Salazar Granjeiro, e com ele palestrou durante alguns férteis minutos. Ele, do fundo dos seus muitos anos (desculpe aqui a cacossemia), lhe tutoriava acerca do uso de uma famosa ferramenta da rede, quando o colóquio evoluiu para um debate tão rápido quanto fecundo sobre filosofia escatológica.</p>
<p style="text-align: justify;">Altamente recomendados para iniciantes eruditos e elegantes.</p>
<p style="text-align: justify;">2009/4/22 Turuna&lt;xxxx@hotmail.com&gt;<br />
<em>Não sei usar twitter&#8230; me manda um tutorial&#8230;<br />
</em></p>
<p style="text-align: justify;">From: Epaminondas Salazar Granjeiro xxx @gmail.com<br />
<em>O twitter é muito simples: Quando você adiciona uma pessoa, não é necessário uma reciprocidade: não é preciso eu te aceitar quando você me adiciona. Logo, não vai ter aquele chato dizendo: hey! me adiciona também. Ninguém tem essa obrigação no Twitter.<br />
Sua ação de adicionar dá a você o direito de seguir as mensagens que aquela pessoa posta. Se você quer dizer algo a ela, na mensagem você posta assim:exemplo:@Granjeiro você é foda!O @ denomina que sua mensagem está sendo postada àquela pessoa. Se você deseja (nem sempre é necessário) mandar uma mensagem direta, sem que ninguem veja, aí sim os 2 usuários precisam estar em se seguindo mutuamente.<br />
Mas aí você diz, e o que diabos eu vou postar? Que vou cagar? (essa é a primeira ideia de post que todo mundo pensa). Não. A graça do Twitter e que faz você começar a ser mais seguido é a relevância de suas mensagens. Então, se você acessa um blog com um post interessante, você pode postar o endereço desse blog e fazer um comentário pertinente a ele. Então as pessoas vêem suas indicações, lêem, discutem e outras começam a ler também&#8230; e seguir&#8230; e aí vai&#8230; E a relevância é importante porque pouca gente/ninguém se interessa em ler ou mesmo escrever &#8220;vou cagar&#8221;. Eu, por exemplo acompanho @anaximandro, @abelardo, @Escoladesagres, @hobbes, @derréis, @Gagadeilheus e mais uma porrada de filosogueiros fodas (e lembrando que eles não precisam me adicionar).<br />
Suas mensagens na grande maioria das vezes são ricas de informação. Acredito eu que a vantagem do Twitter sobre o orkut é a falta de recursos. Isso mesmo. Como a via de postagens é uma só, as discussões ficam centralizadas. Não é necessário entrar numa comunidade e procurar falar a respeito&#8230; e esperar que o povo responda&#8230; e essas coisas&#8230; Você simplesmente posta e fica lá registrado. Quem quiser responder, beleza.<br />
Para secionar um assunto e tornar até mais fácil sua localização, você pode fazer o seguinte:@Granjeiro disse que o último episódio de #Lost foi foda. Quando alguém for na busca procurar posts relacionados a lost, ela vai procurar por #lost. Esse sustenido denomina o assunto abordado.Taí&#8230; Qualquer coisa, pode perguntar<br />
</em></p>
<p style="text-align: justify;">2009/4/22 T.  &lt;xxxx@hotmail.com&gt;<br />
<em>Vamos tentar, mas, cá pra nós, eu falo sobre coisas mais agradáveis do que cagar, muito embora cagar seja uma das coisas mais agradáveis que acontece com nosso corpo, né não?<br />
</em></p>
<p style="text-align: justify;">From: E.S.G. xxxx@gmail.com<br />
<em>Não. Cagar remete ao processo de passar algo grosso pelo esfíncter&#8230; E isso de forma alguma é agradável. Porém, como é uma ação que requer um certo silêncio, é a melhor hora pra ler um livro ou refletir sobre a vida.<br />
</em></p>
<p style="text-align: justify;">2009/4/22 T. &lt;xxxx@hotmail.com&gt;<br />
<em>Granjeiro, se você tivesse dito que passar algo grosso por aquele músculo anelar é desagradável de fora pra dentro eu concordaria, embora isso não seja consenso, você sabe. Mas, de dentro pra fora é tão natural que, numa situação normal, nem força a gente precisa fazer, e ainda dá um suspiro ou uma risadinha de satisfação. Negue isso e você negará a própria condição humana; e que o diga Freud, Lacan, Marcelo Tas e outros peripatéticos afins.<br />
</em></p>
<p style="text-align: justify;">From: E.S.G. &lt;xxxx@gmail.com&gt;<br />
<em>A sensação de alívio ou satisfação por se livrar de algo desagradável é uma coisa&#8230; Agora, gostar de passar algo grosso, em qualquer direção, eu não gosto&#8230; Para deixar mais claro o que quero expressar: O ritual de cagar é um bom &#8220;programa&#8221; porque é um dos únicos momentos da vida em que a pessoa tem total silêncio e paz na vida. Você sabe que naquele momento nada o incomodará! Assim como outros momentos silenciosos de nossas vidas&#8230;Porém a ação &#8220;cagar&#8221; em todos os sentidos é ruim, seboso, as vezes dolorido, as vezes apressado&#8230; e aí vai&#8230;Cagar é um dos maiores hiatos criativos que existem para o ser humano. Certamente Lacan, Freud, Einstein, Amy Winehouse, Lula, Arquimedes e outros grandes tiveram seus EUREKAS! em momentos escatológicos. </em></p>
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		<title>Ipsilone: Constatações 1 &#8211; O Oráculo, a Imprensa, as Tragédias</title>
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		<pubDate>Fri, 05 Jun 2009 16:19:01 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rondinelly</dc:creator>
				<category><![CDATA[Ipsilone]]></category>
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			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Se você puser no Google “AF 447” – a forma bissexta com que tecnicamente o jornalismo designa a tragédia da AirFrance – o oráculo provavelmente responderá, conforme a hora/local/IP que você acesse, com uma página de hoje, dia 05, no primeiro linque. Ponha, então “avião”, que o linque será mais atualizado ainda. Agora há pouco estive no altar do oráculo, consultando-o. Impassível como sempre, ele me respondeu prontamente. Para “AF 447”,  me mandou como primeira indicação uma notícia da Falha de São Paulo, quer dizer, da Folha, de hoje; para “avião”,  uma notícia d’O Lobo, digo, O Globo, de “14 horas atrás”.</p>
<p style="text-align: justify;">Sabendo, como de fato sei, que a Imprensa, a mídia e a opinião pública deste país sempre estão atentas para as tragédias domésticas, e muito mais ainda quando suas vítimas são as populações pobres e periféricas – o que, como todos sabem, é raríssimo de acontecer, deduzi que se eu quisesse me lembrar da longínqua tragédia da barragem do Piauí e requeresse do oráculo alguma notícia disso, citando alguma dessas palavras-chave, ele me responderia com a notícia mais atual e a cobertura mais empenhada possível. Continuei a liturgia e interroguei-lhe com “tragédia no Piauí” e depois “Piauí”. Bem, tive que receber resignado para o primeiro termo uma notícia de 6 dias atrás, muito provavelmente desatualizada e com um linque para um discurso do senador fanfarrão Mão Santa [nesse ponto, me recuso a manifestar qualquer comentário irônico, o nome do cara já é um!]; para o segundo requerimento, apareceu o linque da Revista Piauí (falarei sobre ela depois&#8230;) e o das Escrituras Sagradas, cognominadas Wikipedia.</p>
<p style="text-align: justify;">Obviamente que deve de haver lá pelas profundezas desconhecidas das páginas 10, 11, 12&#8230; do Oráculo algo que remeta a blogues ou mensagens perdidas de um jornalista preocupado com coisas comezinhas como a tragédia do Piauí, que deixou apenas 3 mil famílias desabrigadas, isolou 100 delas e matou, ao que se sabe, 5 pessoas, sendo duas crianças. Se você se interessa por essas tragédias de pequeno porte, <a title="Piauí Solidário" href="http://piauisolidario2009.blogspot.com/" target="_blank">vá aqui</a>.</p>
<p style="text-align: justify;">Isso tudo se deve, eu, você e todos os espectadores do Jornal Nacional sabemos, à forma desinteressada e objetiva como a imprensa brasileira desempenha o seu papel. Qualidade maior só vemos mesmo na disposição com que os congressistas e afins trabalham em suas atribuições. O oráculo, impassível, nem liga&#8230;</p>
<p style="text-align: center;"><img class="size-full wp-image-235 aligncenter" title="y-neg-sb1" src="http://jerimumbeta.com.br/wp-content/uploads/2009/06/y-neg-sb1.gif" alt="y-neg-sb1" width="49" height="51" /></p>
<p style="text-align: center;">
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